As Comunidades Remanescentes Quilombolas e a Comunidade Tia Eva de Campo Grande (MS)
- Jéssica Vitória e Mariana Lopes
- 17 de nov. de 2022
- 4 min de leitura
Atualizado: 21 de nov. de 2022

Características Gerais
As comunidades quilombolas remanescentes são grupos étnicos compostos por indivíduos que se autodefine descendentes de negros relacionados com a resistência e a à opressão histórica sofrida diante da escravidão. Esses grupos utilizam o território e recursos para reproduzirem práticas tradicionais de sua cultura.
A titulação de terras a essas comunidades, é organizado pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) é uma reparação histórica e é responsável por garantir os direitos desses grupos étnicos. Para a garantia desses direitos, a comunidade precisa ser reconhecida pela Fundação Cultural Palmares, responsável por promover políticas públicas e reparação histórica e por carregar a memória da diáspora africana (símbolo: símbolo máximo do Orixá da Justiça e do trovão, presente nas religiões afro-brasileiras).
“A Associação Brasileira de Antropologia (1994) divulgou um documento elaborado pelo Grupo de Trabalho sobre Comunidades Negras Rurais, o qual se refere ao termo ‘remanescente de quilombo’ não mais como resíduo ou resquício de ocupação escrava, mas refere-se sim ao grupo que tenha desenvolvido práticas de resistência na manutenção e reprodução dos modos de vida característicos de um determinado lugar”.
Mato Grosso do Sul
Ao todo, são 22 comunidades no nosso Estado, distribuídas em 15 municípios. Sendo 17 comunidades na Zona Rural e 5 na Zona Urbana. Especificamente, em Campo Grande, existem 3 quilombos: São João Batista, São Benedito/Tia Eva e Chácara do Buriti. As comunidades de MS são formadas no período pós-abolição (1888) a partir de ondas migratórias (vindas de GO, MG, BA e RJ). Para além dessas extra-estaduais, também vieram indivíduos do norte do MT.
É preciso lembrar que após a escravidão, não há qualquer instituição ou política pública que ampare esses indivíduos libertos. Ou seja, onde iriam morar? De onde iriam tirar dinheiro para sobrevivência? Não somente isso, mas e os indivíduos que ainda eram mantidos como escravizados? Que política de fiscalização existia na época para assegurar que a Lei Áurea estava sendo cumprida?
Constituição de 1988
A atual constituição é responsável por garantir a igualdade de gêneros e direitos sociais (como a educação, saúde, e trabalho para todos). Essa constituição também é responsável pelo reconhecimento dos direitos dos quilombolas, como o direito à propriedade de suas terras.
Precisamos pensar também que o Estado não é simplesmente um concessor de direitos, por pura bondade dos políticos. O movimento negro que foi responsável por exigir esses direitos, ou seja, é uma coisa CONQUISTADA. Embora haja uma lei que determina essas titulações, o processo é extremamente lento e enquanto a demarcação de territórios não acontecem, os quilombolas ficam ainda mais vulneráveis, sujeitos à violências.
Patrimônio Cultural
A partir da Constituição de 88, as comunidades quilombolas foram consideradas patrimônio cultural do Brasil. Isso significa que as manifestações e práticas culturais desses grupos étnicos devem ser preservados. A preservação dessa memória está relacionada com a importância em preservar a cultura quilombola e conscientizar as próximas gerações sobre a importância de suas próprias raízes. Isso porque é importante saber a história de sua própria ancestralidade, ou seja, quem eram os seus antepassados e de onde vieram? Será que você repete alguma prática como herança desses indivíduos? (eu, por exemplo, ainda peço benção e isso é uma herança cultural). No Brasil, a criação de museus e memoriais acerca da cultura quilombola garantem a preservação dessa memória.
A Comunidade Tia Eva
Eva Maia de Jesus foi uma escrava na região do interior de Goiás – estado oriundo da exploração e decadência aurífera e que passou a ter a pecuária e agricultura como base econômica. Eva era escrava da família Vilela, fazenda de quem ela trabalhou por muito tempo – tanto que teve suas 3 filhas por lá. Depois de tantas más experiencias – próprias e as que observou – Eva fez uma promessa a São Benedito que, desde que ele a ajudasse a sair da fazenda e ir para o Mato Grosso, ela teria um lugar para criar apenas negros e todos longe da escravidão, vivendo independentemente.
O apelido de “Tia Eva” surgiu depois das tarefas de Eva Maia como benzedeira e foi só no fim do século XIX, aos seus 50 anos de idade, que ela obteve alforria e juntamente de suas filhas, genro, neto e o companheiro – em 1905 – chega em uma área de mata próximo ao córrego Segredo, que era menos cobiçada por sua inequidade para criação de gado, o que desvalorizava a região em questão de cobiça. Eva conseguiu regularizar a posse de sua terra por meio da venda de doces e hortaliças produzidos na vila e comercializados na Vila de Santo Antonio – o que viria a ser Campo Grande.

Ao passo que Campo Grande cresceu, a comunidade de Tia Eva ou de São Sebastião deixou de ser uma comunidade rural e aos poucos se mescla com o crescimento urbano.


Hoje, a comunidade encontra-se perto do bairro Jardim Seminário e conta com o abastecimento de energia elétrica, asfaltamento, escolas, transporte coletivo e UBS. Tudo oriundo das lutas, mobilizações e resistências de mais de 100 anos de história.

Fonte: PLÍNIO DOS SANTOS, 2010, p. 334

A igreja de São Benedito, a promessa de Tia Eva
BIBLIOGRAFIA:
SANTOS, Carlos Barboza Plínio dos Santos. Fiéis descendentes: Redes-irmandades na pós-abolição entre as comunidades negras rurais sul-matogrossenses. 09/2010 (pág.247 a 250)
Comunidade Quilombola Tia Eva <https://www.comunidadequilombolatiaeva.com.br/localizacao/> Acesso: 17/10/2022
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